A cada palavra escolhida, a cada personagem construído, a cada conflito narrado, há muito mais do que técnica literária em jogo. Existe ali a complexidade da mente humana se revelando no papel. Mas qual é, afinal, a relação entre psicologia e escrita? Como os processos mentais influenciam nossa criação literária? E de que forma compreender a psicologia pode nos tornar escritores mais conscientes e sensíveis?
Para explorar essas questões, conversamos com Elane Santana, que nos ajuda a desvendar os fios invisíveis que conectam o funcionamento da mente humana à arte de contar histórias. Prepare-se para uma conversa que vai muito além das páginas escritas.
A escrita é uma ponte entre o consciente e o inconsciente. Quando o paciente escreve, ele traduz em palavras aquilo que muitas vezes ainda não sabe nomear… emoções, dores, memórias, culpas ou afetos silenciados. Na clínica, percebo que escrever é um ato de libertação e organização psíquica. A escrita dá forma ao caos interno. Eu utilizo técnicas de escrita expressiva em minha prática clínica, especialmente quando percebo bloqueios emocionais ou dificuldade em verbalizar sentimentos. Através de diários terapêuticos, cartas (para si mesmo, para o passado, ou até para quem causou dor), o paciente se reencontra com partes esquecidas de si. A escrita o convida a se escutar. É um processo profundo de autoconhecimento e elaboração emocional, onde o “dizer” se transforma em “curar”.
Um personagem só é verossímil quando carrega contradições, ambivalências e conflitos internos, assim como nós, seres humanos. A psicologia nos ensina que ninguém é totalmente bom ou mau; somos feitos de nuances, desejos, medos e mecanismos de defesa. Um escritor que compreende a psicodinâmica humana o funcionamento das emoções, as motivações inconscientes e as reações diante das frustrações criam personagens com alma. O que torna um personagem convincente é justamente sua humanidade: sua coerência emocional, suas feridas e a forma como lida com elas. Escritores que conhecem conceitos como projeção, negação, transferência, luto, culpa e ambivalência afetiva conseguem criar personagens que o leitor reconhece como possíveis e por isso, verdadeiros.
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