O Desafio da Leitura no Ensino Brasileiro

"Ensinar é um ato de coragem."

Apesar dos avanços nas últimas décadas, o Brasil ainda enfrenta dificuldades significativas para formar leitores proficientes. Dados recentes mostram que muitos estudantes chegam ao final da educação básica sem dominar habilidades essenciais de compreensão e interpretação textual, o que impacta diretamente seu desempenho acadêmico e suas oportunidades futuras. Entender os obstáculos que dificultam o desenvolvimento da leitura em nossas escolas – sejam eles relacionados à infraestrutura, à formação docente, ao acesso a livros ou às metodologias de ensino – é o primeiro passo para construirmos soluções efetivas. Para nos ajudar a refletir sobre este cenário e apontar caminhos possíveis, convidamos Douglas Sacramento, 31 anos, natural de Salvador- Bahia, doutorando em Estudos Étnicos e Africanos pelo Pós-Afro/UFBA e professor substituto no setor de Literatura e Leitura e Produção de Texto da UNILAB/Campus dos Malês. Mestre em Literatura e Cultura pelo PPGLitCult/UFBA, licenciado e bacharel em Língua Estrangeira Moderna (UFBA) e licenciado em Letras Vernáculas (Claretiano). Atualmente, atuo como professor no ensino superior, mas atuei por oito anos na educação básica da capital baiana, tanto na rede pública quanto na rede privada.

1. Como você avalia o nível de letramento e compreensão leitora dos alunos que ingressam na universidade atualmente, comparado a décadas anteriores?

Quando ingressei na universidade, em 2012, para cursar Licenciatura em Geografia no IFBA (curso que, posteriormente, tranquei), estava vivendo o início do uso mais constante do celular. As pessoas ao meu redor utilizavam o aparelho de forma mais tranquila, para se comunicar com o outro, e eu estava numa turma composta por pessoas mais velhas, que quase não usavam o celular, inclusive em sala de aula.

Quando entrei na UFBA, em 2014, o contexto já era outro. Tanto eu quanto as pessoas ao meu redor usávamos o celular o tempo todo, embora ainda existisse o hábito de tirar xerox do texto e coisas afins. Existia uma relação com a escrita e a leitura, pensando nesse letramento tradicional.

Ao retornar para a sala de aula no ensino superior, quase dez anos depois, me deparo com um cenário totalmente diferente: estudantes em constante uso do celular, com o letramento inserido num contexto tecnológico. Logo, percebo um hábito de leitura mais voltado para as telas e textos curtos, além de certa ansiedade com textos e livros mais extensos. Portanto, existe uma mudança significativa no cenário universitário, principalmente quando pensamos no avanço da tecnologia e no uso recorrente desses dispositivos digitais, o que influenciou fortemente o letramento das pessoas.

2. Quais estratégias pedagógicas têm se mostrado mais eficazes para desenvolver o hábito de leitura crítica e profunda em estudantes universitários que chegam com déficits de leitura?

Atualmente, utilizo como estratégia o trabalho com textos contemporâneos que abordam o contexto social, cultural e econômico dos estudantes. Quando trabalho com obras da literatura canônica, costumo fazer um resumo e uma contextualização em sala de aula instigando o interesse dos estudantes pela leitura do livro. Em relação aos textos teóricos, acredito que a melhor estratégia é a leitura dialogada em sala de aula, com gradação de dificuldade, ou seja, começo aplicando textos mais palatáveis e crescendo o grau de dificuldade ao longo do semestre. Para facilitar o processo, costumo trazer exemplos e criar pontes com o contemporâneo.

3. De que forma a predominância de textos fragmentados e digitais (redes sociais, mensagens curtas) tem impactado a capacidade dos estudantes de lerem e compreenderem textos acadêmicos mais longos e complexos?

Existe um impacto considerável, pois o estudante se acostuma com textos curtos e diretos, tanto na construção quanto no resultado da argumentação. Essa característica é proveniente do espaço limitado para elucubrar ideias nas redes sociais, ou seja, se escreve pouco e de forma direta. Assim, quando se deparam com textos mais longos e complexos, os estudantes costumam encontrar dificuldade. Ouço muitos comentários sobre a “chatice” desses textos, principalmente os teóricos, que necessitam de muita argumentação até chegar num resultado final.

4. Você percebe diferenças significativas no desempenho acadêmico entre alunos que possuem sólido repertório de leitura e aqueles com histórico limitado de práticas leitoras..?

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